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Relato da restauração
 

PROCEDÊNCIA DO ACERVO
O testamento feito por Machado de Assis, em 30 de julho de 1898, instituía, como única e universal herdeira, sua mulher, D. Carolina de Novaes Machado de Assis. Mas, com o falecimento desta, ele decidiu, em 31 de maio de 1906, destinar seus bens a outra pessoa da família: “Das 12 apólices dos dinheiros recolhidos à Caixa Econômica e dos depositados em conta corrente no London and Brazilian Bank Limited, dos meus móveis, livros e demais objetos a mim pertencentes, nomeio herdeira única a menina Laura, filha de minha sobrinha e comadre, Sara da Costa, e de seu esposo e meu compadre, major Bonifácio Gomes da Costa.”

Anos após a morte de Machado de Assis, a herdeira universal, D. Laura Leitão de Carvalho, trouxe, da casa onde o escritor morou por vinte e quatro anos, situada na Rua Cosme Velho nº 18, Rio de Janeiro, para seu apartamento, em Copacabana, todos os bens herdados.

Em novembro de 1979, D. Laura, preocupada com o destino do legado, lançou um apelo, com o apoio da imprensa, para a preservação da unidade e da integridade física do acervo. D. Laura temia que, com sua morte, a coleção perdesse a própria identidade, ao se dispersar entre seus familiares.

Instituições culturais, intelectuais e artistas movimentaram-se em busca de recursos para adquirir o acervo, e de espaços que viabilizassem a criação de um Museu Machado de Assis. Na ocasião, o delegado regional do Ministério da Educação e Cultura no Rio de Janeiro, escritor Marcos Almir Madeira, sugeriu ao ministro Eduardo Portella que o acervo fosse comprado pelo Governo, o que foi aceito de imediato.

O Ministério, através do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação – FNDE, autorizou a abertura de um crédito suplementar no valor de Cr$ 6 milhões e 500 mil cruzeiros, em favor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, destinado à aquisição do acervo, fato concretizado em 28 de dezembro de 1979. Uma vez realizada a compra, a UFRJ viu-se num impasse quanto ao local destinado à guarda e conservação do acervo.

Sugeriu-se, primeiramente, que fosse levado, em definitivo, para a sede dos Correios e Telégrafos – hoje, Paço Imperial – ou para a antiga residência da Marquesa de Santos. Pretendeu-se, depois, instalá-lo na Faculdade de Letras da Universidade, na Ilha do Fundão, cuja obra estrutural estava por ser concluída.

A falta de definição quanto ao local para a guarda desse patrimônio levou o professor Guilherme Figueiredo, então reitor da Universidade do Rio de Janeiro – UNI-RIO, a intervir junto ao Ministério da Educação e Cultura, oferecendo uma das dependências da Universidade, para abrigá-lo. O oferecimento foi devidamente considerado e, em janeiro de 1980, o acervo foi transferido para um dos prédios da UNI-RIO – a antiga residência do médico Juliano Moreira. Mas este não seria ainda seu último paradeiro: anos depois, foi levado para a Biblioteca Central do Centro de Ciências Humanas da mesma Universidade, onde permaneceu até 1997, em condições precárias de guarda.

Por ocasião das comemorações do Centenário da Academia Brasileira de Letras, a então presidente Nélida Piñon, tendo em vista a preservação do patrimônio do fundador da Academia, entrou em contato com as reitorias das universidades envolvidas na questão, com o intuito de viabilizar a cessão definitiva do acervo de Machado de Assis para a ABL. Sua pretensão foi, em parte, atendida, conforme correspondência do então reitor da UFRJ, professor Paulo Alcântara Gomes, ao professor Hans Jünger Fernando Dohmann, reitor da UNI-RIO, datada de 27 de outubro de 1997. A transferência do acervo se concretizou no dia 16 de dezembro do mesmo ano, e três dias depois, os reitores das duas universidades e a presidente da Academia assinaram um Protocolo de Cooperação, válido por vinte e cinco anos, que oficializou a cessão por comodato do “Mobiliário originalmente de propriedade de Machado de Assis”, constituído pelos seguintes itens:

Um jogo de xadrez – esculpido em madeira (existindo apenas seis no mundo, sendo este o único na América do Sul)
Dois meios-armários
Duas cadeiras pequenas
Uma mesa de chá, com a figura de O Anjo da Noite
Uma mesa de jantar com dez cadeiras
Um aparador grande
Dois aparadores menores
Um leito de casal
Um lavatório
Uma mesa
Uma escultura
Um caldeirão
O Protocolo de Cooperação agrega, ainda, ao mobiliário:

Um quadro, óleo sobre tela, de autoria de Roberto Fontana, intitulado A Dama do Livro.
Uma impressão emoldurada, com os nomes dos trinta amigos que se cotizaram para presentear o escritor com o quadro A Dama do Livro.
Um recorte emoldurado, do soneto feito por Machado de Assis, em agradecimento aos amigos que lhe ofertaram o quadro, publicado no jornal A Gazeta de Notícias, de 18 de abril de 1895.
Um quadro, óleo sobre tela, de autor desconhecido, que representa uma marinha.
Uma reprodução fotográfica do quadro intitulado Retrato de Mme. Récamier, de François Gérard, ofertado ao escritor por Graça Aranha.
Cinco pastas contendo documentos.

 

O MOBILIÁRIO
O mobiliário de Machado de Assis deve ser avaliado de acordo com fenômenos culturais específicos do Oitocentos. Os móveis e objetos são aqui entendidos como produtos do fazer cultural dos artífices da época, passando, portanto, à categoria de “históricos”.

Um traço marcante do conjunto do mobiliário do escritor, datado das últimas décadas do século XIX, é o ecletismo, tendência que se caracteriza, basicamente, pela profusão decorativa e pela incorporação de elementos de vários estilos numa mesma peça.

 Portanto, o mobiliário machadiano, obedecendo ao padrão eclético em vigor na época, não contém, em sua estrutura e nos pormenores ornamentais, fatores precisos de identificação. Misturam-se formas neo-renascentistas, neobarrocas, neo-rococós e neoclássicas. No sistema construtivo, encontram-se técnicas tradicionais como a talha, o torneado, os encaixes e o traçado de palhinha – trabalho introduzido em Portugal pelos franceses, no final do século XVIII, e que chegou ao Brasil com os artífices franceses e portugueses que aqui se fixaram.

O mobiliário em questão é fruto do advento da Revolução Industrial e, conseqüentemente, da produção em série, onde técnicas antigas são substituídas por outras mais modernas. A utilização de cravos de ferro e espigões de madeira, por exemplo, dá lugar ao emprego de parafusos. São usados, também, rodízios nos pés do leito e da mesa – nesta, havendo um sistema de articulações com longarinas de ferro, que aumentam ou diminuem, proporcionalmente, seu comprimento. Tais mesas elásticas surgem no século XIX e são caracterizadas por pesados suportes centrais que deixam de ser esculpidos em peça única de madeira maciça e passam a ser substituídos por apliques e emendas compartimentadas. Estas novas formas de produção se estendem às talhas dos frontões dos aparadores e dos espaldares das cadeiras.

Na literatura machadiana, encontramos referência à produção do móvel brasileiro no período da datação do acervo. Em crônica publicada em 16 de agosto de 1895, Machado de Assis testemunha a profusão de objetos, na categoria das artes decorativas, então existentes no comércio e descreve: “As nossas grandes marcenarias estão cheias de móveis ricos, vários de gosto; não há só cadeiras, mesas, camas, mas toda sorte de trastes de adorno, fielmente copiados dos móveis franceses, alguns de nome original, o bijou de salon, por exemplo, outros em língua híbrida, como o porta-bibelots. Entra-se nos grandes depósitos, fica-se deslumbrado pela perfeição da obra, pela riqueza da matéria, pela beleza da forma.”

No início do século XIX, a influência exercida pela França em todo o mundo, estende-se à vida intelectual e material da monarquia brasileira. O mobiliário da Corte, no Brasil, era quase todo importado da França.

Pode-se mesmo afirmar que o país estava decisivamente ligado às influências externas do mundo europeu.

O crescimento numérico da classe média, aliado à sedução das modas européias, juntamente com as conquistas da Revolução Industrial, provocam um aumento substancial da demanda, que leva a um ritmo cada vez mais intenso

da produção do móvel brasileiro, gerando um produto de qualidade inferior. Na segunda metade do século XIX, conviviam no Rio de Janeiro, ao lado dos móveis importados (franceses, americanos, austríacos), os de fabricação nacional, nem sempre com bom acabamento. O mobiliário machadiano reflete a tendência geral de “importação do estilo francês”. Era construído no país, com madeira brasileira, por artífices nacionais ou estrangeiros aqui residentes, mas seguindo a influência dos estilos europeus, com inserção apenas de sutis interpretações à maneira brasileira. Nossos artífices adotavam, portanto, uma conduta sobretudo imitativa, e não criadora, no que tange ao fazer artístico das artes decorativas. Contudo, dentro da voga da época, de reproduzir móveis estrangeiros, há uma destacada exceção no que se refere ao mobiliário de Machado de Assis: o leito de metal é, provavelmente, uma peça original inglesa. Na Inglaterra vitoriana, era um móvel comum e exportado, com freqüência, para o Brasil. Esse móvel do acervo possuía um dossel articulado, preso aos esteios da cabeceira e atualmente desaparecido.


CONDIÇÕES DE CONSERVAÇÃO
O mobiliário de Machado de Assis sofreu, ao longo do tempo, um processo de deterioração causado pela ausência de conservação adequada. A madeira, por sua origem orgânica, requer ambientes e condições térmicas e de umidade favoráveis à preservação de sua integridade. A falta de conservação permanente acarretou, portanto, sérios danos ao conjunto dos móveis. Efeitos dos agentes atmosféricos – tais como a flutuação da umidade relativa do ar e as oscilações de temperatura – ocasionaram movimentos freqüentes de contração e dilatação.

Os móveis – cujo sistema construtivo utiliza a cola como elemento de união – sofreram com as oscilações climáticas, que provocaram descolamentos nos encaixes e o aparecimento de fissuras nos veios da madeira. Além disso, a integridade da madeira foi atingida, em várias peças do acervo, pela infestação de térmitas, que produziram galerias no interior das estruturas do mobiliário.

A ausência de conservação regular acarretou, também, em função do descolamento dos encaixes, perdas de ornatos nos pontos mais frágeis. Três cadeiras encontravam-se com o espaldar rompido na interseção com o assento. Outros danos graves, identificados possivelmente como resultantes do uso e transporte incorretos, eram arranhões e escoriações nas superfícies da madeira, assim como no mármore do lavatório, que se encontrava fragmentado em várias partes.

Nas cadeiras, a flutuação da umidade relativa do ar e da temperatura atingiu, igualmente, a palhinha dos assentos e dos espaldares. Em face de sua natureza orgânica, apresentou-se uma desidratação, que resultaria em ruptura das fibras em algumas áreas.

Houve, ainda, o comprometimento dos espelhos dos aparadores e do lavatório, pois o composto de prata ficou oxidado em vários pontos, devido à umidade excessiva. Os acessórios de ferro (parafusos, rodízios, dobradiças, longarinas), assim como a estrutura total do leito, sofreram a mesma oxidação. No leito, a corrosão assumiu grandes proporções, com perda total da pintura original – em tinta preta, – reduzida a pequenos vestígios. Todos os ornatos de latão, originalmente recobertos por um banho dourado, perderam tal revestimento, em decorrência, possivelmente, das sucessivas limpezas abrasivas. O sistema de articulação foi comprometido com a perda de três rodízios.


A RESTAURAÇÃO


Diante da diversidade de danos, da variedade de materiais, do volume e da dimensão das peças, foram inicialmente analisados o estado de conservação das mesmas e a real extensão que assumiria o processo de restauração. De posse desses subsídios, elaborou-se um diagnóstico e a proposta de tratamento. As intervenções de conservação e restauração eram de natureza muito complexa, pelos problemas acima apontados. A análise do estado de conservação e da extensão dos processos de deterioração – em suma, o diagnóstico – foi fundamental para adoção das medidas tomadas.


O primeiro passo consistiu na desmontagem dos móveis, para que pudesse ser feito o tratamento, por partes.

Nesta fase, os problemas estruturais foram resolvidos, através da consolidação das áreas descoladas, fragmentadas ou com perda de elementos. Assim, as partes quebradas puderam ser consolidadas com adesivos epoxídicos e vinílicos, além de pinos de cobre ou de cedro; junções abaladas foram reforçadas com lâminas de alumínio e tachas de cobre ou latão.

Num segundo momento, foi feita a descupinização das áreas contaminadas e a imunização de toda a madeira, sobretudo nas partes inferiores e posteriores, mais vulneráveis à infestação. As galerias e cavidades produzidas por térmitas foram preenchidas com uma mistura liquefeita de ceras de abelha e de carnaúba.

Outro procedimento básico, elaborado desde o início, foi a higienização mecânica e química das peças, principalmente nas áreas de talha, onde as sujidades vieram a se concentrar nas reentrâncias: poeira, excrementos de insetos, fuligem e poluentes atmosféricos. Ao mesmo tempo, foi feita uma reidratação da madeira e da palhinha, com composto à base de lanolina anidra e óleos de cedro, de amêndoa e de copaíba.

Paralelamente, procedeu-se à higienização dos espelhos e mármores, inclusive nas partes fragmentadas, cujos resíduos de cola degradada tiveram que ser removidos cuidadosamente, com bisturi, antes da consolidação.

As últimas etapas referem-se mais à restauração estética, tendo sido reconstituídas as partes faltantes dos ornatos com resina acrílica ou epoxídica, e reintegradas com tinta acrílica. Fissuras e escoriações foram obturadas com cera mineral pigmentada, aplicada a quente. O mesmo foi feito nas emendas da talha, cujas vedações já haviam caído.

Algumas tábuas do tampo da mesa passaram por um processo de esmaecimento e, para evitar a diferença de tonalidade, foram reintegradas com extrato de nogueira. Este produto foi usado nas três peças novas de uma das cadeiras, que substituíram as originais desaparecidas.

A reintegração cromática do leito foi total, pois a pintura original se perdera por completo. Após a remoção mecânica de toda a ferrugem e a desoxidação química com produtos industrializados, foi aplicada uma base protetora de zarcão e, sobre esta, esmalte sintético fosco. As partes de latão foram apenas desoxidadas, evitando-se o banho dourado, para que não ficassem com aparência nova, não condizente com a “idade” do móvel.

O dossel articulado, que encimava a cabeceira, não pôde ser reconstituído, por falta de referências fidedignas.

Finalmente, todas as peças foram remontadas e, tanto as de madeira quanto as de mármore, receberam uma demão de cera hidratante, não só para obtenção de brilho, mas, sobretudo, para criar uma camada isolante de proteção.

Todas essas etapas foram registradas através de fotografias e de fichas técnicas, passando a constituir importante fonte de documentação para pesquisas e intervenções futuras.

Em síntese, os móveis de Machado de Assis sofreram “vicissitudes” que são comuns a todos os acervos museológicos brasileiros, em função da falta de conservação permanente, decorrendo esta de uma problemática maior: a ausência de uma política e de uma consciência de preservação da memória e do patrimônio cultural.

Extraído do livro "Rua Cosme Velho, 18 - Relato de Restauro do Mobiliário de Machado de Assis"

 

 
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